Citações do Ministro José Américo de Almeida
Há muitas formas de dizer a verdade. Talvez a
mais persuasiva seja a que tem a aparência de mentira.
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Se escapar alguma exaltação sentimental, é a tragédia da própria
realidade. A paixão só é romântica quando é falsa.
*
O naturalismo foi uma bisbilhotice de trapeiros. Ver bem não é
ver tudo: é ver o que os outros não vêem.
*
A alma semibárbara só é alma pela violência dos instintos. Interpretá-la
com uma sobriedade artificial seria tirar-lhe a alma.
*
Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter
o que comer na terra de Canaã.
*
É um livro triste que procura a alegria. A tristeza do povo brasileiro
é uma licença poética ...
*
Os grandes abalos morais são como as bexigas: se não matam, imunizam.
Mas deixam a marca ostensiva.
*
O regionalismo é o pé-do-fogo da literatura... Mas a dor é universal,
porque é uma expressão de humanidade. E nossa ficção incipiente
não pode competir com os temas cultivados por uma inteligência
mais requintada: só interessará por suas revelações, pela originalidade
de seus aspectos despercebidos.
*
O amor aqui é um tudo-nada de concessão lírica ao clima e à raça.
É um problema de moralidade com o preconceito da vingança privada.
*
Um romance brasileiro sem paisagem seria como Eva expulsa do paraíso.
O ponto é suprimir os lugares-comuns da natureza.
*
A língua nacional tem rr e ss finais... Deve ser utilizada sem
os plebeísmos que lhe afeiam a formação. Brasileirismo não é corruptela
nem solecismo. A plebe fala errado; mas escrever é disciplinar
e construir ...
*
Valem as reticências e as intenções.
O Romancista
OS SALVADOS
Findo o almoço - podiam ser 9 horas - Dagoberto Marçau correu à janela, que
é uma forma de fugir de casa, sem sair fora de portas, como se movesse uma
grande curiosidade. Mas, debruçado, apoiou o queixo na mão soerguida e
entrefechou os olhos, num alheamento de enfado ou displicência.
Vivia ele, desse jeito, entre trabalheiras e ócios, como o homem-máquina
destas terras que ou se agita resistentemente, ou, quando pára, pára mesmo,
como um motor parado.
Como que cobrara medo ao vazio interior. Não há deserto maior que uma casa
deserta.
Entrava afobado, comia, ou, antes, engolia, de cabeça descaída, o repasto
invariável e ou saía de golpe ou ficava a espiar para fora.
A presença do filho recém-chegado, em férias, não lhe modificava essa
impressão. Em vez de confortar-lhe o abandono, agravava-o, mais e mais, como
uma sombra intrusa.
Lúcio voltou da cachoeira com a toalha enrolada na cabeça, como um turbante.
Levantou o braço num gesto de quem mais parecia dar do que pedir a bênção. E
foi, por sua vez, sentar-se à mesa.
Não se defrontavam, sequer, nesse ponto de comunhão familiar, onde as almas se
misturam numa intimidade aperitiva. Forravam-se, assim, ao constrangimento dos
encontros calados ou das conversas contrafeitas e escassas.
A casa-grande, situada numa colina, sobranceava o caminho apertado, no trecho
fronteiro, entre o cercado e o açude.
Num repentino desenfado, Dagoberto estirou o olhar, por cima das mangueiras meãs
enfileiradas ladeira abaixo, para a estrada revolta.
Parecia a poeira levantada, a sujeira do chão num pé de vento.
Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos -
esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.
Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos,
num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.
Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa
em chegar, porque não sabiam onde iam. Expulsos do seu paraíso por espadas de
fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo
Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os
braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos - doentes da alimentação tóxica - com
os fardos das barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada
mais.
Meninotas, com as pregas da súbita velhice, careteavam, torcendo as carinhas
decrépitas de ex-voto. Os vaqueiros másculos, como titãs alquebrados, em petição
de miséria. Pequenos fazendeiros, no arremesso igualitário, baralhavam-se
nesse anônimo aniquilamento.
Mais mortos do que vivos. Vivos, vivíssimos só no olhar. Pupilas do sol da
seca. Uns olhos espasmódicos de pânico, assombrados de si próprios. Agônica
concentração de vitalidade faiscante.
Fariscavam o cheiro enjoativo do melado que lhes exacerbava os estômagos
jejunos. E, em vez de comerem, eram comidos pela própria fome numa autofagia
erosiva.
Lúcio almoçava com o sentido nos retirantes. Escondia côdeas nos bolsos para
distribuir com eles, como quem lança migalhas a aves de arribação.
A cabroeira escarninha metia-os à bulha:
- Vem tirar a barriga da miséria ...
Párias da bagaceira, vítimas de uma emperrada organização do trabalho e de
uma dependência que os desumanizava, eram os mais insensíveis ao martírio das
retiradas.
A colisão dos meios pronunciava-se no contato das migrações periódicas. Os
sertanejos eram mal-vistos nos brejos. E o nome de brejeiro cruelmente
pejorativo.
Lúcio responsabilizava a fisiografia paraibana por esses choques rivais. A cada
zona correspondiam tipos e costumes marcados.
Essa diversidade criava grupos sociais que acarretavam os conflitos de
sentimentos.
Estrugia a trova repulsiva:
Eu não vou na sua casa,
Você não venha na minha,
Porque tem a boca grande,
Vem comer minha farinha...
Homens do sertão, obcecados na mentalidade das reações cruentas, não
convocavam as derradeiras energias num arranque selvagem. A história das secas
era uma história de passividades.
Limitavam-se a fitar os olhos terríveis nos seus ofensores. Outros ronronavam,
como se estivessem engolindo golfadas de ódio.
E nas terras copiosas, que lhes denegavam as promessas visionadas, goravam seus
sonhos de redenção.
Dagoberto olhava por olhar, indiferente a essa tragédia viva.
A seca representava a valorização da safra. Os senhores de engenho, de uma
avidez vã, refaziam-se da depreciação dos tempos normais à custa da desgraça
periódica
O feitor alvitrava a admissão dos retirantes:
- Paga-se pouco mais ou nada ...
Mas Dagoberto escarmentava a convergência molesta. Desafogava a fazenda da
superpopulação imprestável, consignada à caridade pública.
À vista do bueiro fumegante que sujava o céu estivo, a matula espetral
detinha-se esperançosa. E ficava a espiar a casa do engenho como uma grande
essa armada no negrume do teto velho.
Alguns faziam menção de subir. Mas logo desandavam, aos tombos, na mobilidade
incerta.
De quando em quando, um magote vingava o socalco. Chegavam mastigando em seco,
para enganar a fome, nas mais grotescas atitudes da miséria.
Dobravam-se os joelhos, não como pedinchões. Genufletiam moídos de fadiga.
Não se carpiam, como se estivessem realizando um destino irremediável. Nem,
sequer, lavavam com lágrimas as caras poentas.
Escorraçados, retrocediam, arquejantes, sem uma queixa.
E, desengonçando-se, de déu em déu, numa marcha esquecida, o rebotalho
errante ia atulhar as feiras, malignar as cidades.
Dagoberto despercebia-se do desfile macabro. A seca infundia-lhe um sentimento
contrastante.
Era uma inquietação serôdia, como a brasa remanescente que procura acender o
cinzeiro.
Num período de vida em que o homem realiza o que sonhou, ele voltava a sonhar.
Amor - pólvora que se acaba com a primeira explosão, Amor que sabe a frutos
apodrecidos. Era como o caminheiro que, fatigado da jornada, estuga o passo para
chegar antes de anoitecer.
Beirava uma idade em que o instinto sexual instigado se difunde por todos os
sentidos e é mais imaginação que materialidade, como a saudade do que se não
gozou. Crise das uniões retardatárias.
Havia coisa de 18 anos, inveterava-se na viuvez desconfortada, por uma jura
indiscreta:
- Mas eu não encontro outra mulher assim...
E gabava-lhe com minúcias de formas os caracteres da beleza e as prendas
ocultas:
- Mulherão! mulherão!
Os dias do campo decorriam-lhe recreativos. Mas, à noite, quando as portas se
cerravam, cerrava-se-lhe o coração.
A solidão entretinha intimidades desiguais. Admitia o feitor em suas confidências:
- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
- Qual o quê! O senhor encruou ... Se duvidar, com esse calibre é capaz de
passar a perna em seu Lúcio.
A mata fronteira, o padrão majestoso, estava acesa uma cor de incêndio.
Havia uma semana, surdira um toque estranho na monotonia da verdura. Dir-se-ia
um ramo amarelido à torreira da estação.
Dominava ainda a esmeralda tropical. Mas, com pouco, emergia o mesmo matiz em
outro trecho vizinho, como um efeito de luz, um beijo fulgurante do sol em árvore
favorita. E, logo, o pau-d’arco assoberbou a flora, como um banho de ouro na
folhagem.
Nessa manhã luminosa a mata resplandecia com uma orgia de desabrocho em sua
pompa auriverde.
Sem a percepção da paisagem, com a sensibilidade obtusa e entorpecida aos
primores da natureza, Dagoberto inquietava-se, pela primeira vez, perante o ouro
que frondejava. Parecia-lhe que o sol tinha baixado sobre a selva fulva.
Era, talvez, a cor que lhe suscitara o interesse chambão. As pétalas áureas
...
E semicerrou, novamente, os olhos descuriosos. (...)
(A Bagaceira, 1928)
CORRESPONDÊNCIA
Paraíba, 10 de Novembro de 1925.
Meu caro Inojosa:
Gostei muito de sua conferência - O Brasil Brasileiro. Não são simples
frases, mas conceitos oportunos e estimulantes.
Já estou enfarado da literatura pela literatura. A inteligência só serve como
reguladora de energias. Estamos em tempo de passar do sonho à ação. E, ainda
utilizando os padrões do progresso material e cultural de outros povos, devemos
construir obra nossa, isto é, atender às exigências de nosso ambiente físico
e social, como condição de continuidade e de permanência dessas conquistas.
V. vai muito bem por aí, com a orientação deliberada e o talento que Deus
(com licença da palavra...) lhe liberalizou.
Só tem direito de reivindicar as prerrogativas da mocidade brasileira u’a
mocidade assim.
Aprecio, também, especialmente, a moderação de seu modernismo.
Aceite, com muitos agradecimentos, um afetuoso abraço do (2)
Confrade e amigo
José Américo de Almeida
(2) Outra carta de real valor histórico nas relações de José Américo com o
modernismo. Agradecia o exemplar da plaqueta que lhe enviara do Recife, contendo
a conferência O Brasil Brasileiro, em que estudava as idéias nacionalistas
contidas no bojo do modernismo, aquelas que, partidas do poema Juca Mulato, de
Menotti del Picchia, de 1917, haviam caracterizado a poesia e a prosa da Semana
e pós-Semana de 22.
Se na carta anterior, de 1924, mostrava sua condescendência pelo espírito
novo, nesta, de um ano depois, deixava entrever, na fímbria da linguagem, os
motivos seca/bagaceira do seu futuro romance, quando definia que era preciso
"construir obra nossa, isto é, atender às exigências do nosso ambiente físico
e social"-, ... Deus (com licença da palavra") - alusão às minhas
idéias monistas de então.
Paraíba, 25 de junho de 1928.
Amigo Joaquim Inojosa:
Acabo de receber sua delicada carta.
Esperei-o, durante todo o domingo, para mais longa troca de idéias sobre o
movimento que nos interessa. É pena que tivesse saído à noite, perdendo,
assim, a oportunidade de sua gentil visita.
Não fui vê-lo à estação porque não tive notícia prévia da hora do seu
embarque.
A União publicou seu belo e forte discurso que repercutiu nas rodas
entendedoras, de forma mais simpática.
Quando tiver uma folga, irei até aí para rever os confrades e participar do
grato contato do seu espírito moderno.(3)
Meus respeitos à sua Exa. Senhora.
Aceite um abraço afetuoso do
José Américo de Almeida
(3) Carta inserta no vol. 1.o do livro "O Movimento Modernista em
Pernambuco"
Em junho de 1928, proferi na capital paraibana discurso de paraninfo da turma de
formandos da Escola Remington. Aproveitei para dar um balanço do que fora a
campanha modernista de outubro de 1922 àquela data, com o romance a Bagaceira já
nas livrarias, revelando o resultado da renovação na Paraíba numa espécie de
canto do cisne da propaganda diante do êxito maior. Daí que, integrado na
batalha modernista, houvesse José Américo usado das expressões: "para
mais longa troca de idéias sobre o movimento que nos interessa" e
"participar do grato contato do seu espírito moderno", aludindo ao
desencontro da visita programada.
Constitui a carta mais um importante documento revelador da filiação de José
Américo ao modernismo paulista ... "o movimento que nos interessa",
excluindo a hipótese de outra qualquer influência na elaboração da sua obra
imortal.
Tambaú, 24 de fevereiro de 1966
Caro Joaquim Inojosa:
Recebi sua carta e fiquei pensando. O apanhado do nosso encontro está muito bem
lançado, mas me coloca numa posição que, definida por mim, me deixa de certo
modo contrafeito São coisas que poderão ser expressas por outras pessoas, sem
reivindicação de minha parte.
Gostaria assim que você eliminasse a segunda página o período que começa por
Por isso considero... e o que começa por Jamais me deixei...
Agradeço-lhe, bem como ao nosso Ivan, a oferta do livro do Wilson Martins,
muito útil para se formar um conceito do modernismo em São Paulo.
Desculpe a demora desta resposta. Cheguei ao Rio incapacitado até para escrever
uma carta.
Faço votos pelo êxito do seu próximo livro que terá, como sempre, a marca de
sua consciência de escritor.
Abraços do
José Américo de Almeida
(4) Refere-se esta carta ao encontro que mantive no Rio, em 1967, com José Américo
de Almeida. Transformei, ao chegar a casa, a longa palestra numa entrevista.
Lendo-a, já na Paraíba, apenas a modificou em dois ligeiros trechos. Acha-se
publicada no vol. 1o - 1968 - do livro O movimento Modernista em Pernambuco.
Confessava, pela primeira vez, que levara cerca de três anos para concluir o
romance A Bagaceira, fruto do monismo em voga:
- "A proporção que o modernismo se expandia, inclusive no que
representava de
polêmico em Pernambuco, foi-se concretizando dentro de mim a idéia de
igualmente
formarmos uma reação nordestina contra os cânones antigos, a que se chamava
de
"passadismo", sem que perdêssemos o sentido universal da cultura
brasileira. Reagir
como nordestino, queria dizer aproveitar tipos linguagem, costumes regionais do
Nordeste, secas e cangaços, dentro da integração nacionalista pregada pelos
modernistas. Literatura universalista, pois que a literatura, mesmo que fixe
aspectos
regionais, não perde, por isso, o seu aspecto de universalidade. O certo é que
o
modernismo, na fase inicial, nos dava a impressão de combate puro e simples a
tudo o
que fosse "passado". Evidentemente que isto se modificaria rumando os
modernistas
para o nacionalismo".
Eis aí um breve histórico confessional do romance A Bagaceira, com as suas raízes
encravadas no modernismo paulista, o que depois o autor iria repetir na Academia
Brasileira de Letras:
- "Poetas, sim, o modernismo deu dos maiores."(...)
- "Chegou a minha vez. O Norte precisava estar presente"(...) -
"O que houve de
minha parte foi ousadia, numa hora ainda indecisa."( ...) - "O
modernismo foi um
dia e aí está o romance moderno na sua maturidade ..."(...) - "- o
modernismo teve o seu desenvolvimento e esse, sim, é que foi o fenômeno".
Fenômeno que, no afirmar do novo acadêmico, atingira no romance a escritores
... "cariocas, paulistas, gaúchos, mineiros, baianos, pernambucanos,
cearenses, maranhenses, piauienses, quase todo o Norte com esse novo padrão".
João Pessoa (Tambaú) 15 de nov. De 1966
Caro Joaquim Inojosa:
Ora, meu caro Inojosa, fiquei surpreendido em saber que Ivan, chegado agora, não
recebeu minha carta em que juntara outra para você, por ignorar seu endereço.
Logo que saiu aqui seu artigo a respeito de minha candidatura à Academia, tive
pressa em escrever-lhe agradecendo essa sua contribuição, das mais relevantes,
para o efeito moral de minha vitória. Não ignora como sei medir o seu valor.
Apreciei o seu trabalho não só por esse cunho de autoridade, como pela força
da análise e oportunidade dos argumentos. (5)
Até abril ou maio. Estaremos sempre juntos.
Cordialmente,
José Américo
(5) Artigo publicado em O Jornal - Rio - de 18 de outubro e 1966, Ivan: Ivan
Bichara.
(Algumas cartas a Joaquim Inojosa, 1980)
* Fonte: Academia Brasileira de Letras - ABL
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